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"não se toca sem algum risco o íntimo das coisas" 

por Galciane Neves

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A dissociação forçada entre o sujeito e a sua história, as ondas da ausência que amedrontam e lembram do fim, o vazio existencial que se instaura diante daquilo que nunca se pôde conhecer são, muitas vezes, companheiros nesse grande e corajoso salto que é produzir arte e despejar relatos visuais no mundo. Não há dúvidas de que vivenciar essas dilacerantes sensações gera sentidos de reparação, ou uma busca por vozes empáticas, ou ainda um impulso de aprender com quem, apesar de tanto, acredita que a vida pulsa em algum outro tempo que não seja somente o da dor.

 

Coexistindo com essas sensações narradas por parentes, com histórias não oficiais e com os resquícios de uma Alemanha devastada pela Segunda Guerra Mundial, Marina Schroeder se viu diante de uma espécie de herança: fios de uma narrativa ainda por ser contada, que ora repousam, ora se revolvem e deixam no ar muitas incógnitas. A artista perscruta esse universo nebuloso de memórias, fatos, silenciamentos e ausências e vai inventando modos de se reconhecer entre os índices que sobrevivem de sua ancestralidade familiar. E alimenta-se ainda de um outro desejo: o de compor com matérias que podem transpor o silêncio e perseverar.

 

A artista cria composições pictóricas, que visualmente comentam o que perpassa seu corpo, sem a necessidade de enveredar pela apuração da verdade, nem pela recuperação dos fatos que se perderam ou se esvaíram como não ditos. É a pintura que a conduz por caminhos em que, simultaneamente, criar é compartilhar uma artesania e a beleza das texturas, das cores e das composições e experimentar como podem reagir as matérias-primas aos gestos. Assim, Marina imanta rosas, papéis, pigmentos, fendas, relevos e frotagens como condutores de acesso ao tempo.

 

Em um longo percurso de tentativas e experimentos químicos, Marina conseguiu extrair cores de rosas brancas da espécie Rosa hybrida “Avalanche”, da família Rosaceae. Uma paleta cromática veio do extrato de rosas que é utilizado como pigmento em suas pinturas. Para a artista, a rosa é matéria e personagem. “Eu a desloco do lugar habitual do ornamento para o de matéria-prima, uma matéria instável, vulnerável, em transformação”, ela explica. Lidar com as rosas e chegar ao seu extrato são processos que se assemelham a encarar a história pelos seus vestígios, aquilo que sobrou dos acontecimentos e resiste. Em sua poética essa associação entre gestos é criada para atestar que “nada é inventado: tudo é retirado do que já existe”, conta Marina. Outro procedimento importante nessa mostra é a frotagem. A superfície, o muro, a pedra são uma espécie de camada de contato com o que sobrevive. O que passa para o papel é um vestígio, um rastro fantasmagórico, como um minúsculo resquício de uma presença inacessível. Essa fricção é um modo de redimensionar parte da história e vê-la com possibilidades de espalhar-se, dilatar-se, refazer-se.

 

Os trabalhos de Marina apresentados em sua primeira individual na Galeria Aura foram elaborados, nos últimos dois anos, por meio de uma concentração em um tempo de reescrita da memória e de convivência com o pouco que foi dito. São trabalhos que atuam como um refluxo do tempo: não voltam atrás, mas inauguram um modo de conviver com o passado. São procedimentos que dialogam com o que nos diz a escritora espanhola Rosa Montero[1]**: “Nós humanos somos pura narração, somos palavras em busca de sentido. Epiteto dizia, com razão, que o que afeta o ser humano não é o que lhe acontece, mas o que se conta do que lhe acontece. De modo que, se você muda o relato, muda a vida [...]”.

 

Assim, a artista ficcionalizou o que significa perder o lugar de origem, o que viver como estrangeiro acarreta na construção da identidade e como des-pertencer é um processo sem volta. “Meu trabalho é um encontro. Assim como as fronteiras, ele opera como interrupção, uma forma de retornar e tocar a história”, conta Marina. Em seus trabalhos, esses registros táteis dinamizam a ideia de pintura e latejam a transmissão de histórias e relatos. São, em sua fisicalidade, fissuras que convidam a estar junto, como silêncio ou como coisa que diz – nossas duas agoniantes instâncias.

 

[1] Rioto, Cristina. Guardar o corpo com palavras. São Paulo: Editora Planeta, 2025.

[2]** Montero, Rosa. O perigo de estar lúcida. São Paulo: Todavia, 2023.

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