Quando fecho os olhos e enxergo muros tornarem-se falésias e horizonte ao mesmo tempo
por Gus Moura de Almeida
Ao adentrar a primeira sala da exposição Não Se Toca sem algum Risco o Íntimo das Coisas, o espectador é tomado por uma sessão diurna, pois aqui é circundado e imerso por seis trabalhos de Marina Schroeder dotados de uma claridade solar. Neles conjugam-se de maneira harmônica, visivelmente dissociadas e sobrepostas, duas técnicas pictóricas: a frotagem em carvão marcando de negro o suporte alvo do tecido de algodão; e a pintura (pasmem!) de “tinta da rosa” elemento concebido pela artista, que desenvolveu os próprios pigmentos extraídos de rosas (do tipo Avalanche) em laboratórios químicos em tons terrosos que variam do amarelo ao ocre, passando pelo marrom ou tijolo até o verde-musgo.
Por vezes, o que se vê são elementos a evocar, ora topografias típicas como que das falésias, ora rastros de possíveis coreografias imaginárias, como em Das Memórias: Superfície, da série Do que Já Existe (2025); ao passo que por outras são o horizonte que se revela, como em Tempo Comprimido (2025). Chama atenção, sobretudo, o potencial díptico Horizontes Possíveis II & III (2025), pois em uma síntese temos a justaposição de cenários. Porque, ao unir montanhas e horizonte que seria em última instância, em uma praia, olhar ao mesmo tempo para a costa e o limiar do firmamento…
As obras em pintura revelam uma estética do vazio. Muito embora tenham sido meticulosamente concebidas pela artista, ainda que dotadas de certa dose de acaso, estas pinturas possuem amplos campos não preenchidos. Revela-se, assim, a ideia de intencional impressão do inacabado. Tal qual a vida, Schroeder nos ensina e transmite de forma sutil seu pensamento sobre suas abstrações: que a vida, ou a pulsão da vida, é um constante realizar, no qual subjaz o inacabado, o incompleto, rumo a um eterno “fazer e fazendo, fazer-se…”, máxima do existencialismo de Jean-Paul Sartre, na obra O Ser e o Nada (1943).
Em seguida, encontramos uma peça que, embora possa parecer diminuta ou deslocada, representa pedra angular de toda exposição de Schroeder. De ascendência alemã, estudiosa de suas origens, percalços históricos e palavras silenciadas, a artista fez, faz e sempre fará florir, como na canção The Impossible Dream (1965), cuja versão em língua portuguesa foi gravada seis anos depois por Maria Bethânia. A fotografia em questão, intitulada O que Resta, da série Do que Já Existe (2025), representa um de diversos elementos integrantes de uma coleção formada ao longo de décadas pela artista, composta por fragmentos do Muro de Berlim, colapsado em 1989. Advém deste fato que as frotagens anteriormente mencionadas são extraídas de muros, os quais, destacados ou revelados pela artista, projetam-se ou dançam para além dos finos tecidos das telas, perdendo-se (ou encontrando-se) no infinito dos espaços em que são expostos. De modo análogo, os horizontes outrora analisados, também deixam de ser muros, transmutando-se em infinitos pontos distantes no porvir, no sem-fim, no além-mar.
A artista utiliza a mesma pedra de Berlim em dois trabalhos com folhas de papel artesanal — feitas a partir de resíduos de rosas — para gravar sua forma no papel. Temos, aqui, a ideia de que uma vez lançada a flecha, ela não volta. Uma vez dita a palavra, também não. Uma vez marcada a folha, marcada está… Cabem na vida, portanto, os acertos e os desacertos, assim como a responsabilidade por eles. Trata-se da coroação da beleza, da sustentabilidade, da transformação, dos ciclos, e por que não dizer, em tempos de quaresma, um sentido quase religioso de ressureição e contemplação do sagrado na arte.
Na terceira parte da sala de exposição, o espectador vislumbra três trabalhos em pintura, cujas matizes alcançam tons de azul marinho, cinza, marrom e negro, com a presença mais marcante da técnica do borrifado, singelamente presente antes. Ainda em contraste com a primeira sala, temos aqui o lusco-fusco, o noturno, e o destaque para duas peças: Marcas no Tempo: Rastros, da série Do que Já Existe (2025); e Marcas no Tempo: Marcas (2025). Dispostas em paredes opostas, indicam o luar do dia precedente e a aurora de um novo dia por vir. Há na Galleria Borghese, em Roma, em uma pequena sala no segundo andar, uma pintura (do teto) dedicada justamente ao crepúsculo e à aurora figuras que evocam, assim como as estações do ano, a temporalidade e os ciclos da vida. É o que temos no desfecho desta mostra.
Em suma, esta exposição individual de Marina Schroeder emociona, por revelar que a vida é ao mesmo tempo, apesar de incompleta e inconstante, capaz de convidar a cada um de nós diuturnamente a preenchê-la de modo a encontrar valor e congruência em ambos aqueles atributos. Nesta perspectiva, esta mostra é um colírio para os olhos visíveis do corpo, bem como invisíveis da alma; por animar-nos a intuir o caráter redentor da arte e perceber como a vida cotidiana pode e deve ser repleta de beleza. Um tipo de beleza que nunca nos deixa de surpreender.
Gus Moura de Almeida é carioca, vive e trabalha na cidade de São Paulo. Advogado graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, formou-se em Estudos Curatoriais pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage; e em Gestão e Marketing Culturais pela Leuphana Univesität/Goethe Institut. Atua há 17 anos no sistema das artes, primordialmente à frente de galerias comerciais.
março 2026